Poucos apresentadores podem se gabar de estar no ar há tanto tempo quanto Sonia Abrão, 54 anos, dezesseis deles dedicados a um programa diário de variedades. Nem ela sabe (ou diz que não) o segredo que a faz entrar e se instalar na casa de milhões de brasileiros há tanto tempo.
Eu não tinha um motivo específico para marcar uma entrevista com ela, exceto pela minha curiosidade pessoal. Aliás, a partir de hoje, pretendo fazer aqui nesse espaço outras conversas como essa, movida apenas pela vontade de uma boa conversa. Essa é uma das vantagens de ter um blog meu: seguir o que me parece que vai render. (E eu estava, certo, acho.)
Sônia me recebeu após seu programa, numa tarde gelada em que havia feito mais de vinte merchans — o recorde dela, de quando se dividia entre a televisão e o rádio, é de setenta dessas ações num dia —, e me contou um monte de coisas que talvez você, leitor querido, também queira saber. Então, pega um café, e senta aqui com a gente.
Você comenta sobre a vida das pessoas, mas pouco se sabe sobre a sua vida.
Sou muito discreta, é meu jeito. Reforçado pela faculdade: o jornalista sai de lá ciente de que é intermediário da história, e não a própria história.
Mas isso mudou. Hoje você é uma celebridade nacional.
Para mim, ainda hoje, é diferente dar entrevista. É estranho. Meu negócio é a informação.
Você é casada?
Não sou mais. Graças a Deus. Solteira, e vou continuar.
Por quê?
Não quero deixar de namorar, mas casar realmente não pretendo. Qualquer tipo de amor prende, e não tenho mais paciência para as concessões, acordos e renúncias. Fiquei dezessete anos com meu ex-marido, foi um bom casamento e uma separação amigável, mas não quero mais. A não ser que aconteça um acidente de percurso que me faça mudar de ideia.
Bonita, bem sucedida, rica...
Rica, não. Vivo do meu salário.
Mesmo com tanto merchan, Sonia?
País em crise, né?
Você é muito paquerada?
Sou, claro. Mas deixa eu explicar: esse “claro” não é por eu me achar. Mas, sim, porque as pessoas que estão na televisão... Não sei que tipo de tempero a gente tem, atrai as pessoas.
Quando foi seu último encontro romântico?
Não vou falar.
Você usa apps de paquera, tipo Tinder?
Não acredito em nada disso.
Há quanto tempo está solteira?
Dez anos já.
Nesse tempo todo teve algum moreno misterioso?
Sim, tem. Mas sou muito discreta. Minha liberdade está nisso, em ninguém ficar sabendo.
Você está namorando, então?
Mais ou menos.
Cadê foto dele? Ou saiu no seu Instagram e eu não vi?
Postar foto, nem pensar. Nunca!
O que mudou para você depois dos 50 anos?
É como aquele momento em que seu pé se acostuma perfeitamente a um sapato. As coisas são mais claras na minha cabeça e no coração. É um conforto grande, mas que tem no contrapé mudanças no peso e na aparência, essas sim, não muito agradáveis. Mas isso não anula o fato de quão bem me sinto comigo mesma a essa altura da vida.
Você se cuida muito?
Não sou exemplo para ninguém. Não me exercito, sou sedentária, como fast food. Outro dia a Gretchen me contou como foi colocar os tais fios russos no rosto... De jeito nenhum! Só consigo encarar procedimentos de saúde, não os de estética. Minha mãe fez um peeling, ficou um monstro. Dei um berro! Parecia que tinha caído uma bomba atômica. Uma semana depois, não tinha mais nada, mas no começo parece rescaldo de incêndio! Na hora que eu despencar de vez, não sei qual será minha reação.
Muitas jornalistas da sua geração saíram do ar. Você continua na televisão, diariamente, há dezesseis anos. O que você tem que elas não?
Não sei. Essa pergunta nós mesmos começamos a nos fazer. Vivo a televisão desde que comecei a escrever sobre isso no ‘Notícias Populares’, no fim dos anos 80. Nunca foi meu veículo preferido.
O que seus estudos de público mostram? Você deve fazer essas análises sobre a audiência.
Sim, mas a vida não é ciência exata. Tem um mistério da química, de uma reação imprevisível do público. Quer mais estudos do que a Globo faz, ao pensar num tema de novela, e não dá certo? Colocam no ar com um tremendo elenco, 99% de certeza que vai ser sucesso, e não é! Esse imponderável, esse ponto de interrogação existe. A gente não sabe ao certo de onde vem o sucesso ou fracasso. Pode ser uma coisa de extrema qualidade e não dar certo, por outro lado algo tosco ser, entendeu?
Entendi, mas não estou satisfeito. Acho que no seu coração você sabe. Qual é sua impressão?
Acho que é por conversar com o público, falar o que penso. Não estou interessada em fazer gênero. As pessoas gostam quando têm que gostar. De alguma maneira, as pessoas detectaram uma verdade no programa e no meu jeito. Mais do que isso, juro que não sei explicar.
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| Uau, baby! Olha só que gatona, participando de um quadro no programa do Gugu, em 1900 e antigamente! #cocota |
Estar no ar todo dia mexe com sua vaidade?
Nossa, mas não mesmo. Televisão nunca foi meu veículo preferido. Nunca pensei em ter programa. Eu gostava de programa de rádio, porque a relação do público com o comunicador é mais sincera. É mais honesta. Você não precisa da embalagem. Eles estão ligados no conteúdo da sua mensagem. Não é a juventude, a beleza, a malhação que conta. O problema principal nem é esse: são as próprias pessoas, com esse lance da imagem, se colocarem em pedestais. Eles se sentem a nata da humanidade, acham que estão acima da gente. Mexe com o ego de verdade, com a vaidade de verdade, e aí começam a mexer no rosto, a se bombar.
Por que as pessoas gostam tanto de saber da vida dos outros?
O pessoal tem a fantasia de que quem é bonito, famoso e rico tem o passaporte para o paraíso. Parece que essa pessoa não tem problema na vida. Vai morar em mansão, ser amado e nunca ficar doente. A gente, que trabalha nessa área, é o ponto de ligação entre esse mundo e a realidade. Eles querem saber o que você, como profissional da área, tem a dizer, já que tem o privilégio de chegar perto dos deuses. Todo mundo gostaria de ser famoso, porque na cabeça das pessoas isso é sinônimo de ser amado, que é a necessidade humana mais básica, e rico. Sendo rico até bonito você pode ficar.
Notícia ruim sobre famoso dá mais audiência por causa disso?
Separação, doenças tristes e problemáticas são coisas que o público acha que não acontecem com quem é famoso. Quando acontece, trazem um certo conforto, de eles pensarem que têm algo em comum com os deuses.
Quem critica você diz que seu programa explora a dor alheia para ganhar popularidade. O que pensa a respeito?
Que isso é falso. O programa sempre deu certo, e é um rótulo que querem colocar.
Acho que as pessoas se referem a quando você fala sobre um assunto trágico por muitos dias.
Quando acontece uma história, você pega o jornal impresso e a semana inteira o assunto é abordado lá. O que a gente chama de suíte, como você sabe, que é continuar a cobertura de algo que não foi esgotado completamente no dia anterior. É uma sequência de acontecimentos que despertam o interesse público. As pessoas ainda querem informação a respeito. Ah, isso é explorar dor dos outros. Cai um avião na Cochinchina e morrem 600 pessoas. Até se assimilar um golpe como esse é preciso tempo. Vem informação num dia, caixa preta, recolher destroços, indenização das famílias... Isso é exploração da dor? Não. É retrato da realidade. A gente nunca fez nada diferente dos grandes programas policiais e noticiários. Só estamos num horário alternativo em que acham que tem que ter culinária, artesanato e desfile de moda.
Como lida com as opiniões das pessoas a seu respeito?
Às vezes as pessoas comentam coisas sobre a gente que não falam de nós, e sim do problema da pessoa. Fica claro que é alguém muito mal transado escrevendo. Não ligo mesmo. Agora, quando o tom é agressivo ou muito baixo, dou block. Adoro! Agora aperfeiçoei um método que é xingar junto. Se o cara escreve uma coisa besta demais, xingo e bloqueio. F**k you, e mando embora. É libertador.
A selfie de maiô virou um tabu pra você?
Imagina, por quê?
Pela repercussão.
Foi uma surpresa mesmo. Uma loucura. Até hoje o pessoal fala nisso. Eu devia ter lançado uma marca de maiô preto. Fiz a foto de brincadeira, coisa daqueles começos de Instagram. Nunca podia imaginar. Era um body, na verdade, uma coisa caretésima. Nunca imaginei que ia rolar aquilo tudo. Marcou, me diverti bastante até com as trolagens, as pessoas imitando. Isso tem de bom na internet: o bom humor. As pessoas acham que eu sou só da cintura para cima? Porque não tinha motivo mais pra isso.
Mas você também nunca mais postou nada que se expusesse tanto.
A Marília Gabriela me perguntou o que viria depois disso, se viria uma foto de biquíni. Aquilo foi acidente de percurso.
Por falar em acidente, o que aconteceu outro dia que você saiu correndo do ar?
Era feriado, e em dias assim é comum funcionários trazerem os filhos aqui para a produtora. Comecei a ouvir um choro, continuei no ar, mas quando ficou alto demais, saí correndo. Achei que era minha irmã que tinha se machucado ou que algo havia acontecido com minha mãe.
E o que era?
Foi um menino que o pai tirou o iPad dele. Mas o choro ficou tão intenso que nem parecia mais de criança. Soava como alguém morrendo, precisando de hospital.
Que outros micos você viveu nesses anos todos de televisão ao vivo?
Como esse, acho que nenhum. Se bem que uma vez pegou fogo no cenário. Tinha uma cozinha aqui no programa. Na janelinha começou a aparecer uma chama pequena, depois outra... Logo era um fogaréu. Comecei a falar: “É fogo!”. Meu irmão apareceu com um extintor, foi uma trapalhada.
E entrevistado hostil, já teve?
O pessoal do É o Tchan, com quem hoje tenho uma relação ótima, chegou aqui um dia com uma má vontade tremenda. Respondiam bem monossilábicos, ficavam conversando entre eles, as meninas entre elas. Aí falei: “Gente, vocês querem parar de dar entrevista?”, e eles melhoraram com o chacoalhão. Botei para dançar, pois foi o que eles tinham vindo fazer, no fim das contas. Que que é? Porta da rua é serventia da casa!
Algum dia vai existir mundo sem fofoca?
Difícil. É da natureza humana. A fofoca é uma forma de terapia para quem não pode pagar terapeuta. Se você fala de alguém, você sempre fala como se fosse melhor que ele. É um exercício de poder e autoafirmação. Quando isso é jogado para o lado dos que você acha que são os queridinhos de Deus, a coisa fica mais aguda ainda.







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