Ser uma pessoa noturna
Minha vida se resume a nadar contra a maré da maioria da humanidade, que consegue ser produtiva no supervalorizado horário comercial. Das 8h às 18h o mundo lá fora acontece, enquanto eu estou dentro de um casulo, mesmo quando meu corpo está na correnteza com os demais.
E me entupir de café, guaraná e energético, para à noite recorrer à melatonina, sempre na busca por acertar uma dívida cronológica que, no balanço das horas, nunca vai mudar.
Daí, na hora que me empolgo pra fazer e acontecer, todos ao redor se foram, aparece uma carona ou convite pra jantar, e a realização de hoje fica pela metade.
Ser uma pessoa noturna é levantar da cama, de meia e pijama, e escrever um texto às 2:25 da manhã, porque se deixar para amanhã, não lembro mais qual era a ideia. (Não adianta anotar, inspiração adiada é inspiração perdida.)
O silêncio do mundo é a matéria-prima que alimenta minha criatividade, ao passo que os sons da rotina funcionam como minha kryptonita. Eu sou o Super-Homem da meia-noite, e o meio-dia, o Lex Luthor que me derruba.
Obviamente escrevo essas palavras embalado na empolgação de quem, enquanto espera começar o turno da madrugada do Twitter, pensa que é capaz de tirar do papel o livro que existe em algum lugar da minha cabeça, os posts elaborados que precisa criar ânimo para montar, as entrevistas bacanas que estão por transcrever. Ou mesmo aquela colagem de fotos que vai ficar linda na sala de casa, mas que "qualquer hora" pretendo fazer acontecer.
De noite não existe "semana que vem".
Ou "deixa pra mais tarde". O tarde dos outros é o meu agora.
Nem "proibido para menores".
E olha que sonho com a noite desde muito pequeno, quando todos dormiam e eu me via, olhos arregalados sob o cobertor Paraíba, imaginando o que estava perdendo do mundo lá fora enquanto todo mundo perdia tempo roncando.
(Minha mãe, coitadinha, sem entender a coruja que havia colocado no mundo.)
Ser uma pessoa noturna é precisar explicar aos colegas de expediente que você não está triste. Que é apenas porque são ainda 10h da madrugada. Aliás, não existe NADA que eu odeie mais no mundo que a luz das 8h da manhã.
É ter se sentido liberto quando surgiu televisão a cabo no Brasil, e você passou a poder ligar a televisão sem ter de olhar para as barras coloridas ou para a promessa de que às 6h começaria o Telecurso 2º grau. Nos dias de hoje, é conseguir SEMPRE ver mais um episódio na Netflix, e se frustrar porque os demais já pegaram no sono.
Ser uma pessoa noturna é amar a madrugada com todas as forças, enquanto reza com a mesma intensidade para ser capaz de passar a acordar às 6h da manhã, tal e qual o resto do planeta. Ao mesmo tempo, sentir o chão sumir sob os seus pés aos primeiros sinais de que a noite acabou, e é hora de ir dormir.
É acordar e ver que a Gabriela Pugliesi e a Carol Buffara fizeram uma base de 92872784 treinos funcionais enquanto você só conseguia pensar na música "Quem qué pão", da Xuxa. E se sentir um inútil por estar tão pra trás na corrida por likes do Instagram.
É ler esse texto sobre madrugada no meio do expediente e pensar que, enfim, alguém entende você! Tamo junto, irmã ou irmã notívago!
Drama da vida do notívago: acordar cedo pra fazer exame. Obviamente, é melhor ficar acordado de vez, deixar pra dormir quando der. No fundo, rola a esperança de que isso vá acertar o descompasso dos meus ponteiros, sabe?
Tenho vergonha de dizer isso, mas quando saio de casa às 6h ou 7h, fico sempre surpreso com a quantidade de gente que tem na rua. Por mais que eu já SAIBA que isso é óbvio, no meu cronômetro interno, é bem essa a hora que devia estar começando o Programa do Jô.
É se questionar se sua vida seria melhor caso você se mudasse pro Japão, Nova Zelândia ou Austrália. Quem sabe os fusos horários do mundo são o antídoto para o veneno do meu relógio interno?
É se emocionar com a música 'Alta Noite', da Marisa Monte, que fala de madrugadas completamente inertes, sem ninguém ao alcance dos olhos, sem movimento, ninguém com os pés na água. Todo mundo foi dormir. Menos eu. Enquanto isso, anoitece em certas regiões.
(texto dedicado à amiga Daia Leide, homo sapiens mais notívago que conheci, musa inspiradora dos textos madruguentos)

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